Novo trabalho

O homem na mesa ao lado quer se mudar para a praia e abrir um templo de meditação budista. Lá embaixo as pessoas andam em círculos dentro da piscina.

O vinho que estou bebendo veio numa tacinha de plástico e tem gosto bom. Não é doce como aquele gaúcho daquela vez, apesar de ser vinho brasileiro. A luz se faz passar dentro dele e marca a bandeja de vermelho.

Passou por mim um cansaço e me derrubou na bancada de sentar. Desmancho. Olho para o teto falando ao telefone. Nos amamos. Tenho medo de alguém vir me dizer que não se pode deitar aqui. Meu cabelo se abriu em leque sobre o estofado.

Tenho limites e um deles é não trabalhar mais que as horas de um dia de trabalho. Ando concluindo que é muito difícil ter alguma novidade no mundo. Como somos medrosos.

E se eu escolhesse? E se eu escolhesse entrar naquela piscina de calcinha e sutiã?

Ainda não assinaram minha carteira. Estou me esforçando. E ao mesmo tempo tento provar alguma coisa. Por ser a única mulher lá, sinto que tenho que provar alguma coisa. Fico elucubrando inexistentes diálogos machistas na minha cabeça. Como eu reagiria?

A moça que se sentou ao meu lado saiu e me agradeceu. Não havia motivo, ela apenas sentou ao meu lado num local público. Obrigada. Eu também costumo agradecer por tudo.

Há uma diferença importante no trabalho novo. Não há telefone tocando.

Eu não vou entrar na piscina agora. E nem pensar demais. Porque o vinho faz sombra vermelha na base da tacinha. E a sombra sombra na bandeja.

Canola

“A dor passa, Lary?” Uma amiga me perguntou dias depois de perder a mãe. Olhando para a tela do celular, tentando invocar uma resposta, pensei em canola.

“Canola”. Eu olhava para ela, para a respiração fraca e errática dela, para os traços finos, agora tão extremos, tão distantes da pessoa que era ela, e pensava se seria essa a última palavra que eu ouviria dos lábios de minha mãe. Concentrava-me no ir e vir do ar, no leve movimento do peito sob a camisola rosa. Só mais uma vez. Será a última? Só mais uma vez, por favor, nunca pare. No quarto iluminado da tarde, estranhamente rarefeito, cheirava-se morte e ouvia-se choro. Não o meu. Eu não chorava.  Estava concentrada. Todas as células do meu corpo em suspensão à espera do último sopro.

Eu já sabia que ela iria morrer. Eu soube quando, dias antes, não foi difícil segurá-la em meus braços, embaixo do chuveiro, tão leve, tão frágil. Eu soube no momento em que alguém (quem?) decidiu chamar a ambulância. Eu soube quando, na noite anterior, a voz do médico dizia de níveis de oxigenação, procedimentos de emergência e da hora certa de dizer adeus. Eu soube quando, ao chegar ao hospital pela manhã, não consegui falar com ela. Eu queria pedir desculpas, eu queria contar do sábado lindo que fazia, da saudade que já me apertava o peito, da importância da presença e da ausência dela. Eu queria sussurrar palavras doces em seu ouvido, falar de Deus, do amor, dizer que eu estava ali, segurando suas mãos, que eu não iria deixá-la sozinha. As tias impediram. “Ela está cansada, não force.” Eu aquiesci, mas elas não entendiam. Meu coração estava transbordando e eu não queria ficar sozinha, eu não queria ser abandonada com aquela palavra cada vez mais estranha, sem sentido. Canola. Canola?

“Óleo vegetal considerado por médicos e nutricionistas como o de melhor composição de ácidos graxos. 6 letras.” Eu li em voz alta, tentando encontrar palavras além daquela que dançava em minha mente e guiava meus olhos pra longe dela, pra dentro da página, pra ponta do lápis. “Impossibilidade orgânica de manter o processo homeostático. 5 letras.” Mas ainda não. Naquela hora ela ainda era possível, naquela hora, tão perto do fim, ela quebrava o silêncio e dizia “Canola”. Uma ponta (ou pontada) de esperança. Ela ainda estava lá, ela ainda podia me ouvir. Ela ainda podia me ouvir. Ainda dava tempo. Não deu.

“A dor passa, Lary?” A dor passa. Mas a dor volta. No meio da noite, tremendo depois de um pesadelo, ainda sentindo gosto de terra e cheiro de flor. Volta quando a reconheço ao me olhar no espelho, ou nos lábios finos de uma prima, ou nas maçãs do rosto cheias de uma estranha qualquer que passa na rua. A dor volta e me dá as mãos em todos os pores do sol depois daquele fatídico entardecer de setembro, que tingiu o céu de vermelho e encheu de lágrimas os meus olhos, que viam através da janela a óbvia metáfora daquele crepúsculo: a transição do dia para a noite e da vida para a morte, triste e docemente sincronizados para sempre dentro de mim. Mais uma palavra. Lusco-fusco. E canola.

A plataforma

Minha familia é dessas. Meus amigos também. Quem eu amo é assim. Eles são desses que esperam para dar o último tchau de despedida. Acenam, fazem beijo no ar, abraço de um pra dois, fala sem som, telepatia. Entendemos tudo. Algumas caretas – e rimos bastante. Mas não pode demorar muito a partir o ônibus, o trem, o carro – e não demore, por favor, o avião a voar -, senão essa bobeira toda principia a tomar consciência de si e bate uma saudadezinha já, que vai crescendo já, mesmo prematura e boba. A gente se ama muito. Perdi a conta de quantas vezes já me botaram num ônibus, e quantas caretas eu fiz ou quantas falas ao ar eu falei. Eles também já não lembram. Entendemos tudo. Mas o que eles não sabem – e eu também não sei -, é o que acontece depois que as rodas rodam e a cidade vai ficando pra trás enquanto eles ficam pequeninos até sumir. Às vezes não acontece nada comigo. Eu durmo e só. Noutras, como hoje, escorrem aquelas lágrimas inocentes e independentes, que simplesmente caem e babam o pescoço todo. E numas, menos vezes, sim, sai aquele choro sofrido, gemido, que dá vontade de chorar. Daí que então as rodas rodam, começam a rodar, ou o avião decola, vai voar, e, como num milagrezinho, voa. E depois que passa o chorinho, ou depois que não acontece nada, já vem aquela saudade e aquele amor de quem cresceu aprendendo a amar muito mesmo muito longe. E só. E pronto. Alguém que cresceu sendo forte demais, mesmo fraca, mesmo asmática. Chegar e ir é tudo a mesma coisa. Porque também são grandes os abraços pesados que eu gosto de dar. E eles que me esperam para ir também ficam lá me esperando chegar. E eu estou sempre em movimento. A plataforma onde nos despedimos também é onde nos encontramos. Ou como quando a criança que você ama vem correndo e pula no seu colo. Ela te ama também. E, na estrada, os quilômetros que faltam para casa faltam para todo lugar, casa é em todo lugar. É onde o amor está.

O catarro seco

De repente, num suspiro forte, ele saiu.

Um pequeno catarro seco, meio escuro, meio duro, formado por tudo que ela havia respirado nos chamados ÚLTIMOS TEMPOS DE AGORA.

Saiu melhor do que entrou, porque foi duma vez só. Não deu nem tempo da menina catar aquela joça na mão, olhar, dar um peteleco nela pra longe, esquecer depois. O suspiro foi tão forte que ele saiu como um projétil sairia de uma arma.

Em seguida, veio um suspiro brando, desses que só quem já experimentou a liberdade sabe o que é. Ela se recompôs do susto.

Esse era o fim dos ÚLTIMOS TEMPOS DE AGORA. Percebeu ela.

E começou a lembrar que aquele catarro tinha se formado em seu nariz lentamente. Nos ÚLTIMOS TEMPOS DE AGORA, ela havia respirado, basicamente, sua poluição, seu perfume, seu cheiro, seu cigarro, sua caspa, seu aroma de café, seu roupão, seu fedor, suor. Ácaros, esporas, angiospermas, dentes-de-leão. Urina.

Tinha nele (no catarro seco) um pouco do sabão-em-pó que ele usava nas roupas, do amaciante, até mesmo um pouco de pó de fazer tapioca.

Ia grudando tudo. E, de tudo que era respirado, ficava um pouco ali. Foi o que houve nos ÚLTIMOS TEMPOS DE AGORA. Ela não percebeu a que ponto havia chegado até que o catarro começou a incomodar dentro do nariz.

Quando ela sorria muito e puxava o ar com força, doía ali a presença daquele catarro seco. Quando mexia no nariz por qualquer descuido, apertava aquela joça contra as mucosas nasais. Doía também.

No tempo em que não doía, passava despercebido e a menina simplesmente achava que estava tudo bem. Eram dias e dias de tudo bem. Ele não dava sinal de vida nem de morte, somente existia. Era cômoda a existência.

E foi assim até o dia do suspiro forte. A menina dissimulava e digredia e falava pouca coisa com coisa. Sentiu-se cansada de tudo o que havia passado nos ÚLTIMOS TEMPOS DE AGORA e suspirou forte.

De repente, ele saiu. Deixou livre espaço para respirar.

Retrato

Como se tudo pudesse ficar para sempre como é agora, seria um retrato congelado no Instagram. Os bebês que nasceram e, apesar de vivos, simplesmente dormem. As turmas que se encontram nos aniversários. Aquela foto do Museu do Louvre. Se tudo ficasse para sempre como é agora, seria essa felicidade toda como é agora. Seria a vista da janela parada numa noite de recém-outono. Seria o fim de março de um ano par. Sem chuva. Mas venta um pouco de vento como se fosse setembro e a gente toda nos prédios acende as luzes para iluminar. Alameda. Avenida. Como se tudo pudesse ficar para sempre como é agora, não haveria antes nem depois. E todos os pensamentos não doeriam nem despertariam. E talvez você conseguisse dormir bem à noite. E ela não se preocupasse tanto comigo. E eu simplesmente inventaria um acorde novo para o violão. As conversas imaginadas acabariam e ninguém estaria esperando por nenhum telefonema. As moças não rezariam Ave Maria e ninguém desejaria nada ao Universo. Seria apenas a felicidade, agora, um gole estúpido de cerveja, agora, e uma foto para depois.

Uma carta

Por aqui está tudo bem, amiga. A orquídea deu um broto novo e está mais verde do que nunca. As flores já caíram, mas não tem importância: ela está firme, verdinha e sei que o florescer é raro. Estou de bom humor e passei o dia rindo de tudo o que era só um pouco engraçado. Do que era muito engraçado de verdade eu até gargalhei. Andei na rua com um sorriso largo e fui elogiada por isso. Meu calendário novo colei na parede e está tudo muito bonito aqui em casa. A faxineira nova é ótima. As plantas estão crescendo e os ramos rumam em direção ao sol. A geladeira ficou cheia depois da compra boa que fiz hoje. Tem uva até. Tenho gastado muito dinheiro, mas só em coisa boa. Comidas, bebidas e danças. Ah, e comprei brincos novos hoje! Ontem era domingo e na madrugada a malemolência ao som um de trompete muito louco fez  uma coincidência e me trouxe um homem bonito. Barba, cabelo e bigode. O café da manhã estava uma delícia. Caminhei solto, com os passos de mulher e antes do almoço tomei uma cerveja que me lembro muito gelada. Café e um bolo de chocolate. Perambulei na tarde com os amigos. Era o crepúsculo dos deuses e tudo parecia encaixar. Por aqui está tudo muito bem, amiga. Aprendi a cantar uma música nova e espero poder te mostrar logo. Mande notícias do lado daí.”   

Cansei dos cupcakes

cupcake (foto: joshua conley)

Estou tentando ter paciência, mas eu cansei.

Cansei do horóscopo, da previsão do tempo. Cansei dos conselhos. Cansei do Facebook, cansei das fotos. Cansei das vitrines. Cansei da gourmetização do mundo e dos panos de chita.

Cansei dos cupcakes, principalmente.

Cansei das modas. Cansei dos aplicativos para tudo. Cansei da otimização da vida. Cansei do utilitarismo e dos manuais. Cansei das listas. Cansei dos e-mails. Cansei das mensagens e da nossa falta de tempo.

Estou tentando ter paciência.

Cansei dos ditados populares, das fofocas milenares. Cansei das regras. Cansei das poses. Das edições. Eu juro ter paciência.

Cansei da preguiça. Cansei. Mesmo.